Essa menina vivia no meu sonho, mas, depois, virou semente no meu ventre. Era sonho, foi semente e, de repente, já é gente! Essa menina me faz amamentar o amanhã. Nutrir na mente cenas do que ainda será, sem ansiedade, só certezas que nascem serenas do seu olhar. A certeza do sorriso, do som da sua voz, dos seus passos, nossos papos, os passeios e as perguntas; A certeza do seu abraço, que já me aquece o coração e a certeza de ser chamada MÃE, mesmo que diante das incertezas, eu me sinta também menina.
Nos instantes de incerteza eu descubro que é preciso reunir na alma tudo aquilo que os meninos e as meninas me ensinaram, tudo aquilo que não está nos livros nem no consultório do pediatra, tudo aquilo que aprendi sem pretensão. A sorte é que sempre há um menino ou uma menina brincando em cada coração e eles ensinam tudo que é preciso saber para fazer crescer a minha menina.
A minha memória vai até os meus avós garimpando gestos de meninice que ajudam a deseducar a mente e ensinar o coração. O menino-avô me ensinou que criança carece de colo e colo ensina o amor concreto que o corpo aprende antes da cabeça. O outro menino-avô me ensinou que criança precisa de sabor e um chocolotate colocado sempre no mesmo lugar ensina que o amor é doce, delicado e constate. As meninas das minhas avós também me ensinaram muito, uma me ensinou que criança é artista desde cedo e dado o incentivo faz poesia, pintura, teatro... Amor que transborda em arte. A outra me ensinou que criança precisa de merenda todo fim de tarde pra aprender sobre a mesa, a conversa fiada, o amor que se faz alimento em cada pedaço de pão.
Pai e mãe também tem menino dentro de si. Eu vi a menina-mãe pelas frestas da nossa rotina, nas historinhas antes de dormir, na casa bagunçada, no abraço cotidiano e no incentivo de desbravar a vida como bandeirante. Eu aprendi com o menino-pai nas entrelinhas das lições, nos brinquedos de montar que ele montava antes da gente, nos filmes dos Trapalhões que ele ria das trapalhadas e na sua vontade de nos mostrar o mundo. A menina-irmã me ensinou a companhia constante, a brincadeira sempre completa, a possibilidade de carregar e cuidar e a certeza de não ser só.
O menino-marido nunca teve receio de ser menino. E a cada dia ele é para nós a certeza do sorriso, do desenho animado, do cubo mágico e das acrobacias. Aprendi também com os meninos de dentro dos amigos e dos amores. O menino-mago me ensinou a importância das coisas simples e coloridas como um por do sol. O menino-som me ensinou as melodias que ninam a alma. Meninos e meninas me ensinaram a escalar cada vez mais alto, a brincar de Imagem e Ação e a fazer dos amigos uma família de afilhados, dindos e dindas. Acima de tudo e através de todos aprendi com o próprio Deus que se fez menino para ensinar o AMOR.Maio, 2008














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